por
Ricardo Agreste da Silva
Nos últimos quatro anos, tenho sido tremendamente impactado pelos escritos de um pastor presbiteriano chamado Eugene H. Peterson. Ele tem sido, para mim, uma espécie de mentor em minha jornada de descoberta da vocação pastoral, em meio a tantas outras vozes com suas idéias e propostas altamente sedutoras. Este texto é fruto de minhas anotações sobre algumas de suas idéias. Assim, achei que seria interessante compartilha-lo, tanto para reflexão de outros, como para provocar a discussão sobre o que realmente significa “ser pastor”. Em minha opinião, a discussão deste assunto é hoje uma questão de vida ou morte, não somente para aqueles que desempenham o ministério pastoral, como para as igrejas que são por eles pastoreadas.
Entre Domingos:
Aos domingos, a vida pastoral até que não parece ser
tão difícil. Afinal, tudo está relativamente em ordem, da liturgia ao sermão,
do boletim ao coral e todas as pessoas, bem arrumadas e assentadas, estão
prontas para participar do momento de adoração e, aparentemente, dispostas para
ouvir a pregação da Palavra de Deus.
O problema é que, de segunda a sábado, as coisas não
acontecem de forma tão organizada, ou mesmo, previsível. As pessoas não parecem
tão arrumadas e prontas para a adoração a Deus, muito menos para ouvir Sua
Palavra. Então, a ordem da adoração dominical dá lugar a realidade do caos
cotidiano.
Apesar do domingo ser um dia essencial no trabalho
pastoral, a maior parte deste ministério se dá nos dias que separam um domingo
do outro. Por isso, pastoralmente, precisamos dar a mesma atenção ao cotidiano,
procurando desenvolver a arte de pastorear em meio ao caos, ou como Peterson
coloca: “praticar a arte de orar em meio ao tráfico” [1]
Curar Almas: A Arte Esquecida
Hoje, existe certa distinção entre o que pastores
fazem aos domingos e o que fazem entre os domingos. O que fazem aos domingos
não mudou ao longo dos últimos séculos: pregar a Palavra, administrar os
sacramentos e zelar pela disciplina. No entanto, a tarefa entre domingos foi
drasticamente alterada no último século.
Antigamente, o trabalho pastoral entre domingos era
parte do que era feito aos domingos. Entre domingos, pastores estavam com
indivíduos ou pequenos grupos para estudar a Bíblia e orar com e por eles. O
cenário mudava mas o objetivo era o mesmo: descobrir o significado das
Escrituras, desenvolver uma vida de oração, guiando pessoas à maturidade. [2]
Este trabalho pastoral era nomeado historicamente como
o serviço de cura das almas. O sentido original da palavra latina “cura” é
cuidado. Assim, como Peterson aponta, “a cura de almas, pois, é dirigido pelas
Escrituras, moldado pelo cuidado na oração, dedicado a pessoas individualmente
ou em grupos, em lugares sagrados e profanos. É uma determinação em trabalhar
com o centro, em concentrar-se no essencial.” [3]
Atualmente, o trabalho pastoral entre domingos é
definido pelo trabalho de “tocar uma igreja” assim como um comerciante toca sua
loja ou um empresário a sua empresa. O trabalho pastoral foi quase que
inteiramente secularizado, exceção feita ao trabalho dominical. Os mentores dos
pastores atuais não são os sábios mestres da antiguidade, mas os espertos
consultores de liderança empresarial. A vocação pastoral não é orientada pela
oração e sensibilidade, mas pela ação e esperteza para fazer uma igreja crescer
e destacar-se.
Com isso, não estamos querendo dizer que no trabalho
pastoral não existem atividades administrativas necessárias para a vida da
igreja com as quais o pastor acabe por se envolver. No entanto, como Peterson
sabiamente compara, como homens casados precisamos “tocar a casa” com nossas
esposas. Contas necessitam ser pagas, pequenas reformas feitas e decisões
tomadas. No entanto, no casamento e em família, “tocar a casa” não é o que
fazemos essencialmente. A avenida principal de nossa vida em família é
caracterizada pela construção de um lar, pelo desenvolvimento de um
relacionamento conjugal sólido, pela criação de filhos, pela alegria em receber
amigos, etc.
Á reas de tensão:
Mas não quero ser tido por idealista e irreal nas
expectativas. Tenho plena consciência de que o problema maior de pastores que
desejam se tornar guias de almas hoje será o fato de que este ministério se
dará no meio de pessoas que esperam que eles “toquem uma igreja”. A tensão
entre a vocação de um pastor e a expectativa de uma congregação se dará,
segundo Peterson, especialmente em três áreas: na iniciativa, na linguagem e
nos problemas.
A tarefa de “tocar uma igreja” exige muita iniciativa.
Desde a concepção da idéia, da motivação do grupo, até o recrutamento, o
treinamento e a supervisão do trabalho. Iniciativa é essencial e o combate a
indolência imprescindível. Diferentemente, no trabalho da cura de almas, o
pressuposto básico é de que Deus já tomou a iniciativa em todo lugar e a todo
momento. Ele já está no controle da situação. Deus já está atuando diligente,
redentiva e estrategicamente antes de eu aparecer em cena. Assim , enquanto
as perguntas de alguém que “toca uma igreja” são: O que devemos nós fazer?
Quais as providências que devemos nós tomar para melhorar esta comunidade? As
perguntas de quem “cura almas” são: O que tem Deus feito na vida deste grupo de
forma que possa eu participar? Como a graça de Deus tem se manifestado entre
eles de forma que eu possa explicitar? O que Deus quer fazer deles de forma que
eu possa contribuir?
Assim, o trabalho pastoral de curar almas, no que se
refere a organização e planejamento do grupo, se torna não necessariamente um
trabalho de ter e vender idéias, mas de descobrir o que Deus já tem feito na
história do grupo e o que ele ainda deseja fazer em suas vidas, vivendo o
ministério de acordo com esta direção.
Na tarefa de “tocar uma igreja” a linguagem básica
usada é descritiva e motivacional. Descritiva por que quero que as pessoas
estejam informadas acerca do que fazer. Motivacional por que então as pessoas
se engajarão no que deve ser feito. Diferentemente, no trabalho de curar almas,
o pastor esta muito mais interessado no que as pessoas são e no que estão se
tornando em Jesus do que no que sabem e nas funções que podem desempenhar. É
claro que, como pastores, temos muito o que ensinar e muito que desafiar a
fazer. Mas nosso primeiro trabalho na vida das pessoas está relacionado não ao
que sabem ou ao que fazem, mas ao que são. Ser pastor implica em descobrir e
usar, primariamente a linguagem relacional que tem lugar na conversa com
pessoas e na oração para com Deus.
Na tarefa de “tocar uma igreja”, uma das atividades
mais comuns está relacionada a resolver problemas. A grande dificuldade é que
os problemas vão surgindo com tanta intensidade que a solução dos mesmos
torna-se o trabalho integral do pastor. Diferentemente, na tarefa de curar
almas, os problemas não são vistos como dificuldades a serem resolvidas, mas
como mistérios a serem explorados. No entanto, na sociedade secularizada em que
vivemos, nada gera mais desconforto nas pessoas do que as situações que não
podem ser explicadas, controladas e direcionadas imediatamente. Se deixarmos
que nossa tarefa pastoral se restrinja a solução simples e imediata de
problemas, estaremos abrindo mão de uma das mais significativas experiências
pastorais que é a de guiar as pessoas em meio ao caos e ensiná-las a orar no
meio do tráfico do cotidiano.
NOTAS:
1.
Eugene H. Peterson, The
Contemplative Pastor (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), p. 54.
2. Em seu outro livro, Working the Angles (Grand Rapids, Eerdmans,
1994), Peterson trabalha estes três elementos: Palavra, Oração e Orientação
Espiritual, como sendo os três atos essenciais no ministério pastoral.
3.
Eugene H. Peterson, The
Contemplative Pastor, p. 57.