quinta-feira, 3 de maio de 2012

De Profissão à Vocação



por
Rev. Ricardo Barbosa de Souza
Alguns dias atrás, ouvi um pastor afirmar, até com certo orgulho, que atendia uma média de 30 pessoas por dia em seu gabinete pastoral. A princípio, aquela afirmação me deixou pasmo. Nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse conseguido tal façanha.
Considerando que este pastor trabalha ininterruptamente (sem parar para almoço, água, cafézinho, banheiro etc.) das 8 da manhã às 6 da tarde, ou seja, 10 horas, ele disporia apenas de 20 minutos para cada pessoa, isso sem contar o tempo que se perde entre a saída de um e a entrada de outro.
Vinte minutos para ouvir os dilemas da alma e do coração, aconselhar, orientar e orar com cada um. De duas uma: ou há um certo exagero nos números, comum das estatísticas dos pastores no Brasil, ou o significado da vocação pastoral foi completamente perdido.
Não pretendo, aqui, analisar este fato específico mas, fazer algumas considerações em torno da figura do pastor no mundo moderno. As mudanças pelas quais o mundo vem passando são profundas e rápidas e, inegavelmente, afetam tanto a igreja como o sacerdócio.
A Igreja moderna transformou-se num negócio, numa empresa, e o pastor num executivo que luta para manter-se no mercado. Esta é, talvez, uma das mudanças mais significativas e sérias que estamos atravessando.
Somos agora executivos eclesiásticos, circulando com agendas eletrônicas, telefones celulares, secretárias, auxiliares e assistentes, para atender a um volume cada vez maior de reuniões, entrevistas, conferências, aconselhamentos, etc. Ser ocupado, tornou-se um símbolo de "status" e sucesso tanto no mundo secular como no religioso. Ter uma agenda repleta de compromissos é sinal de competência; afinal, ninguém considera um médico competente, cuja sala de espera do consultório encontra-se absolutamente vazia, e ele, confortavelmente sentado em sua cadeira lendo uma boa revista. Para ser competente, precisa estar com a agenda dos próximos meses completamente cheia. Este sim é um bom profissional. Nesta busca por sucesso e "status" não temos mais tempo para construirmos amizades verdadeiras e profundas, nem tempo para caminharmos com nossos amigos no caminho do discipulado. Não temos tempo para ouvir as histórias dos velhos, os dramas dos mais novos e as crises da alma humana. Dispomos apenas de 20 minutos.
Vivemos hoje um processo de profissionalização do sacerdócio, o qual vem deixando de ser uma vocação para tornar-se numa profissão, e isto faz uma diferença tremenda nos resultados. Henri Nouwen em seu livro "Creative Ministry" apresenta três perigos ou armadilhas que estes líderes profissionais enfrentam.

O primeiro é o perigo do concretismo.
Trata-se da tendência ou inclinação de ter como motivação principal os resultados objetivos e concretos decorrentes das ações do ministério.
Muitos líderes encontram-se frustrados porque os resultados que esperam nem sempre aparecem com rapidez e objetividade que gostariam.
O profissionalismo nos induz a avaliar o ministério por resultados mensuráveis. No entanto, o ministro da reconciliação que atua na promoção do encontro do homem com Deus, com o próximo e consigo mesmo, não pode avaliar seu ministério por resultados mensuráveis estatisticamente.

O segundo perigo é o do poder.
Líderes profissionais encontram-se constantemente diante do perigo de criarem pequenos reinos para eles mesmos. O profissional necessita ser reconhecido, admirado, aclamado.
Precisa sentir-se e preservar-se superior aos outros para mantê-los cativos e dependentes. Geralmente o líder profissional é cercado de admiradores e não de discípulos, de dependentes emocionais e não de amigos. O poder impede que as pontes de amizade e comunhão sejam estabelecidas. O líder profissional que cai na armadilha do poder acaba tornando-se um anti ministro da reconciliação.

O terceiro perigo é o do orgulho.
O profissional reconhece que as mudanças precisam acontecer, empenha-se em converter as pessoas mas é tentado a pensar que ele próprio não precisa de conversão. Ao invez de reconhecer que é parte da comunidade que serve, veste a fantasia de "messias", intocável, sempre correto e justo.
A natureza da vocação é essencialmente relacional. Somos chamados para promover a reconciliação. Este chamado envolve mais do que a capacidade de execução de projetos de natureza religiosa ou conversas de 20 minutos; envolve a arte de penetrar nos lugares secretos da alma humana e trazer para dentro deles a presença divina, conduzi-los à experiência da oração e ao encontro com o Criador. Isto exige tempo. A profissionalização do ministério torna-nos desumanos, mais preocupados conosco e nosso sucesso do que com a vida e seus afetos.
Algum tempo atrás uma paroquiana abordou-me mais ou menos assim: "Sei que você é uma pessoa bastante ocupada, e que quase nunca tem tempo, mas gostaria de poder conversar um pouco". Talvez devesse ficar contente com este "elogio", mas, se não tenho mais tempo para conversar com as pessoas, se estou tão absorvido com meus "negócios" que já não disponho de tempo para o pastoreio, se minha agenda anda tão cheia a ponto de não poder sentar e ouvir um pouco as conversas sobre a vida, que tipo de pastor sou? Precisamos resgatar a natureza da vocação da igreja e do pastor. Não fomos chamados para o mercado, mas para a vida.

Um comentário:

  1. A palavra vocação me trouxe a memória o termo "IDE", entretanto, quando Jesus pronunciou estas palavras “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura (Marcos 16:15), Ele não estava ordenando que os discípulos fossem ao mundo, pois o termo IDE, do verbo grego aqui não tem conotação imperativa, mas sim afirmativa. Jesus, ao utilizar o termo IDE, estava dizendo claramente assim: “quando vocês forem”. O que isso quer dizer? Significa que Jesus, considerava que eles iriam, mesmo sem Ele ordenar, pois era fato que os discípulos deveriam compartilhar do evangelho com toda a criatura.
    É como se lêssemos João 15.16, onde Jesus não ordenou aos escolhidos que fossem, mas que os nomeou para que indo gerem frutos. É o mesmo entendimento que Jesus teve com Pedro dizendo: “quando te converteres confirma teus irmãos”. Jesus, não deu ordens à Pedro a que se convertesse, mas que sabia que Pedro um dia se converteria de verdade, e quando isso acontecesse, aí sim, teria uma ordem a ser cumprida: “confirma teus irmãos”.
    Quando exponho que o IDE não significa uma ordem, não quero dizer que deixou de ser uma obrigação, continua sendo, pois é o mínimo que podemos fazer por gratidão por tudo o que o Senhor fez por nós e por tudo o que nos deu. Sou tão certo disso, que Jesus conhecia o coração dos discípulos e sabia que eles iriam, e sabia que nós iríamos também. Portanto, “quando você for”, não deixe de pregar e ensinar. A ordem, é portanto FAÇA DISCÍPULOS.
    Há quem diga que podemos simplesmente dizer que é a missão que Deus deixou para seus discípulos de buscar almas e pregar a palavra salvadora para as pessoas que ainda não vivem uma comunhão espiritual no coração e no partir do pão fazendo assim completo o plano da salvação de Jesus.

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